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A televisão: de um carinho especial para uma alergia pessoal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.10.11

Já o disse aqui, os filmes entraram na minha vida através da televisão. Como a maior parte dos filmes dessas décadas amadas eram a preto e branco, não fazia muita diferença que a televisão também fosse a preto e branco. Só viria a tornar-se colorida no nosso país em 80.

Se a televisão me trouxe os filmes que amei logo desde o início, como não sentir um carinho especial por essa caixinha mágica? De tal forma que sempre preferi ver os filmes na televisão do que em salas de cinema! Também já o disse aqui e provoquei reacções acesas e escandalizadas.

Entretanto, muita coisa mudou na televisão e nos meuis hábitos cinematográficos, porque me tornei alérgica ao écrã falante. Só o ruído das vozes, sempre iguais e cansativas, me põe os cabelos em pé. E mesmo as vozes dos canais das séries americanas, não são muito animadores. Produtos formatados, em pacote, para consumo de fatias de clientes, o público-alvo. A melhor utilização da televisão para mim é a de permitir ver os filmes que coloco no leitor de cds.

Também espreito os filmes no Youtube, o mais recente foi o All that Heaven Allows, do Douglas Sirk, que vi pela terceira vez. Nele, o realizador já prevê os estragos que a televisão virá provocar a nível da comunicação familiar e social. O reflexo da mãe de família no écrã de televisão é de partir o coração. 

Tudo bem, tudo bem, é uma companhia já indispensável para os mais velhos (detesto a palavra seniores). Cada um sabe de si. Mas mesmo neste caso acho prioritária a comunicação humana, directa, sempre que possível. Sim, mesmo neste caso acho prioritária a passeata a pé, as excursões de autocarro, os piqueniques, actividades várias como o teatro, a dança, o canto, o convívio, do que especados em frente de uma televisão.

É certo que hoje já se pode falar de um fenómeno de dependência televisiva. Sem dúvida. O próprio écrã luminoso parece que atrai o olhar meio mortiço de milhões e milhões de pessoas. O mesmo já se passa com outros écrãs, gigantes e minúsculos, por todo o mundo e em todas as faixas etárias.

 

 

 

 

 

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publicado às 13:01

Rossellini e o vulcão como metáfora cinematográfica

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.04.10

 

Ultimamente dou comigo a ver filmes italianos e franceses actuais, europeus digamos assim. Não incluo os filmes ingleses nesta categoria de filmes europeus, pois a sua concepção lembra-me muito a construção dos argumentos americanos e actualmente, dos ingleses, prefiro as séries televisivas históricas. Agora estou mais virada para o cinema europeu do sul. Cinema italiano, francês, espanhol...

O cinema inglês foi, para mim, Powell e Pressburger, Hitchcock e David Lean. Embora um ou outro filme actual ainda mexa comigo, essa foi a minha época preferida. Depois houve um tempo em que via filmes suecos (Bergman) e nórdicos em geral... mas agora estou mais sulista talvez...

 

A Europa cultural está muito para além de lugares cinematográficos, exotismo de um passado ainda presente, turismo histórico, etc. A Europa cultural ainda existe, é preciso não deixar que o processo de erosão actual a consiga destruir. E só por isso já valia a pena ver alguns filmes actuais. Não propriamente pela linguagem específica do cinema, porque aí os especialistas são os americanos. Desconheço o cinema actual do oriente, Japão, Índia, China, Coreia, etc., mas dizem-me que há imenso a descobrir, autênticas revelações. Não duvido. Mas tenho de me concentrar nalgum ponto e nalguma motivação, e agora é a Europa que ocupa os meus neurónios e o meu coração. Perceber quem somos e para onde nos estão a querer levar, arte incluída, sendo a arte comunicação connosco próprios, com os que nos rodeiam e com o mundo.  

 

O impacto que o cinema europeu teve na minha pessoa foi gradual, insinuou-se. Na infância e pré-adolescência não fui imune à terrível poesia e romantismo da língua francesa, por exemplo. Na televisão passavam séries de cavaleiros com nomes românticos, Le Chevalier de la Tempête, não acham incrível? Sim, que adolescente ficaria imune? Aqueles cavaleiros corajosos, sempre de espada pronta para defender a sua dama, os castelos sombrios e majestosos... ainda por cima andava a ler o Alexandre Dumas... Também passaram nessa altura séries inglesas de época que acompanhei com imenso interesse: Disraeli, Anna Karenina, Eu, Claudius... O teatro inglês, e o teatro filmado em geral, era muito valorizado.

 

Mas os meus primeiros filmes foram os musicais americanos na televisão a preto e branco, as comédias, as aventuras, a capa e espada, os piratas. Só mais tarde iria aprender a valorizar os diálogos, o seu incrível ritmo, a sua ironia. O mesmo para os filmes ingleses, o lado mental dos seus filmes, sóbrio e afectado.  

Entretanto descobri o cinema italiano, na comédia inicialmente, mas depois no neo-realismo. La Strada foi o que mais me impressionou. A música ajudou a fixar essa impressão. Mas houve outro filme, o Stromboli, esse vulcão activo nessa ilha atávica, visceral.

 

É dessa ilha e desse vulcão que gostaria de falar hoje. De uma aldeia de vida dura, de gente dura. E como uma mulher que escapara a um campo de concentração se vê ali enfiada, numa nova prisão, a da natureza violenta, a da solidão e isolamento.

O filme é quase um documentário, o que o torna incrivelmente realista. Vale a pena rever aquela escalada da mulher pela montanha, a nuvem que a envolve, o seu terrível cansaço. A natureza ainda lhe ensinará o essencial de si própria, mas porque ela quer viver. Por vezes é preciso enfrentar a morte, o fim de tudo, para poder respirar e viver.

 

O vulcão é uma metáfora, a meu ver, terrivelmente intensa e sensual. Os japoneses sabem-no pois explicam quase tudo o que lhes acontece a partir da natureza. E isto é possível porque a sua linguagem é essencialmente visual.

A natureza tem tudo para nos revelar sobre a nossa própria natureza. Rossellini mostra-nos isso da forma mais realista e poética possível. Ele que foi um dos realizadores que melhor conciliou realidade e poesia. Lembram-se da Viaggio in Italia? Desse outro vulcão, o Vesúvio, e das marcas da destruição que deixara atrás de si? Do impacto que essa viagem teve nessas duas criaturas a organizar as suas vidas no caminho quase inevitável do cinismo e da indiferença? E da ideia que fica da possibilidade de descoberta individual, do essencial, quando estamos ainda receptivos às revelações da natureza?

 

Um pequeno intervalo aqui, para recarregar as baterias...

 

 

Voltando ao cinema europeu, tenho para mim que a energia vital de filmes como estes do Rossellini só é possível com a autenticidade. E que esta autenticidade ainda é recuperável no cinema europeu, mas já não a vemos no cinema americano que se estereotipou por completo, salvo uma ou duas excepções. O próprio Wim Wenders, que se iniciou a filmar fascinado pela América cinematográfica, voltou à Europa original e os Anjos vêm daí, os sonhos de humanos vulneráveis, na procura de um sentido, de uma lógica para as suas existências... Vi ontem o seu Imagens de Palermo e fiquei impressionada. Onde é que ele poderia encontrar aquele percurso em aberto, aquela inquietação humana, frágil e humilde, na América? Só no território europeu, este continente tão velho, tão antigo, tão decadente e, no entanto, o único onde ainda é possível pôr tudo em causa sem qualquer estranheza, sem preconceitos nem alibis.

É isto que me motiva agora,  tentar vislumbrar a identidade cultural europeia, essa complexidade e essa autenticidade, essa ousadia de quem atravessou séculos e já viu tudo, de quem perdeu a inocência do olhar mas que está finalmente preparado para se render à sua verdadeira natureza. Finalmente, a verdade. Para a assumir é preciso coragem. Para se olhar nesse espelho. Wim Wenders revela-nos isso. Através do fotógrafo que deambula pelas ruas de Palermo e adormece nas ruas, de cansaço ou porque finalmente se rende...

 

 

 

 

 

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publicado às 20:15

Tudo está no nosso olhar

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.07.09

Out of Rosenheim (Café Bagdad). A chegada da mulher estrangeira ao Café Bagdad, de mala na mão, deixando um marido para trás. E ainda por cima a mala errada, com as roupas dele.

Os estranhos habitantes daquele motel ao lado do Café e das bombas de gasolina, perdidos naquele deserto. A começar pela dona do negócio, Brenda, uma mulher histérica e irascível.

A aproximação das duas mulheres que irão formar uma verdadeira equipa, depois de muitas atribulações. O contraste entre elas é aliás fabuloso. A mulher calma e afectuosa, por quem o pintor ficará desde logo fascinado, irá suavizar o clima geral do café, a começar pelo pó acumulado, pela desarrumação, pelo mau-humor.


Aqui são circunstâncias improváveis que trazem novas formas de ver a vida e de a viver. Tudo está no nosso olhar. Como olhamos o outro. E como olhamos a vida.


Há uma cena muito simples e muito poética, da mulher a correr atrás de um boomerang. E do pintor a olhá-la, hipnotizado. Irá conseguir pintá-la. E um dos quadros ficará a somar os dias até ela voltar.

Uma das cenas finais é absolutamente indizível: magnífica Marianne Sägebrecht! Toda a claridade e frescura naquele yes! E magnífico Jack Palance! Repararam naquele sorriso luminoso de Jack Palance?

 

 

 

Coincidências interessantes: Já aqui dediquei um post a um outro filme, igualmente num local isolado, no meio do nada, e com um café onde se servem refeições e umas bombas de gasolina: The Petrified Forest. Com cerca de 50 anos de diferença entre si, em ambos surgem dois viajantes, aparecidos do nada: no primeiro é um escritor-nómada, neste uma mulher que acaba de sair do carro ali mesmo, em plena estrada. Só que no primeiro é uma jovem amável e generosa que recebe o viajante e neste é uma mulher irascível e desconfiada que encara a recém-chegada. Mas tanto o viajante como a recém-chegada irão alterar de forma profunda e definitiva a vida dos que os acolhem. Bem, neste a alteração é muito mais abrangente: a recém-chegada terá uma influência benéfica em toda a gente, por assim dizer: a começar pela mulher com o tal péssimo feitio, passando pelos seus dois filhos, uma miúda que ainda anda à deriva e um rapaz que toca piano de forma obsessiva. Já para não falar do pintor, que vê nela, e de um relance, uma luminosidade e suavidade invulgares. Que por ela fica verdadeiramente fascinado. E que terá de a pintar e de a guardar consigo. Bem, e não fica por aqui: a sua energia e criativadade transformam aquele café para sempre, ficará tudo arrumado e a brilhar, e os viajantes, neste caso camionistas de longo curso, terão direito a espectáculo musical com números mágicos incluídos.

 

 

 

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publicado às 15:06

Saraband

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.08

Quando comecei a alinhavar um texto sobre Saraband, coloquei-o de lado com a sensação incómoda de não o entender, de não apreender toda a sua dimensão. Mais tarde, decidi avançar: nunca conseguimos apreender a ideia de um autor (aqui, do realizador, Ingmar Bergman). É sempre a nossa perspectiva, o nosso olhar que prevalece. Pode modificar-se, pode até aprofundar-se, mas é sempre o nosso olhar...

 

Ingmar Bergman é um homem do Cinema mas é, antes e acima disso, um homem do Teatro e das Personagens. Pelo menos, é assim que o vejo.
O meu Ingmar Bergman é o do Cinema, o dos morangos silvestres, o desses filmes quase medievais e misteriosos, de um mágico preto e branco... Filmes de diálogos numa língua estranha, de lugares ligados ao princípio dos tempos.
A partir dos anos 60, volta-se cada vez mais para as personagens e para o teatro. Consegue escavar pela alma humana dentro, de um modo que nos deixa desarmados. As personagens revelam a sua parte oculta, subterrânea. É implacável, quer desvendar tudo.
Comparativamente a tanta dor e violência, este Saraband até nos soa suave, tranquilo... mas não é nada suave e muito menos tranquilo...


Primeiro, vi a incomunicabilidade humana, um grande deserto.
Depois, uma diferença (intransponível?) entre duas naturezas aqui tão distintas: a masculina-desejo e território e a feminina-afecto e comunicação.


Retomo aqui o fôlego, porque a tarefa é difícil, pelo menos para mim. Ingmar Bergman é um génio, no sentido mais antigo e medieval do termo, no sentido mais terreno. O mundo que os seus filmes nos revela é um mundo de florestas sombrias, onde não entra o sol, um mundo de lagos aparentemente quietos, mas em que se adivinham tumultos. Como em Saraband...

 

Em Saraband Ingmar Bergman é sobretudo implacável com a natureza masculina. Em Johan: o lado racional que começa a fechar-se a tudo e a todos; para quem o desejo é a base de uma relação e também uma forma de se proteger do medo da saída de cena; que alimenta ódios e ressentimentos que utiliza para provar o seu poder sobre outros (domínio territorial?, forma de confirmar que ainda está vivo?).
E a personagem mais difícil de aceitar: Henrik, o filho de Johan, o homem que se encolheu a um canto, que desistiu de viver e se apoiou e pendurou na própria filha, colocando-a no lugar impossível da sua mulher morta. O egoísta, o dependente, que recorre às estratégias mais humilhantes para manter a companhia e a atenção constante da filha, querendo tornar-se necessário, imprescindível mesmo.


Implacável com a natureza masculina e incrivelmente amoroso com a natureza feminina. Aqui, numa visita à sua alma profunda: a sua bondade genuína e a sua generosidade sem limites. Enquanto o homem se fecha e se torna inacessível ao afecto, a mulher expande a sua compreensão. A mulher vê, entende, aceita. E, além de perceber, age.


Marianne quer salvar toda a gente, Johan, o ex-marido em primeiro lugar. Mesmo que isso ainda a magoe, sobretudo o silêncio, que é mais fácil de suportar à distância mas que é intolerável na proximidade. Marianne hesita à porta do terraço e fica a olhá-lo a dormitar, subitamente velho, subitamente vulnerável. Mas é um homem fechado em si próprio que acorda. Não é envolvente o olhar que a recebe. É um olhar fugidio e um riso nervoso. Tudo nele a gritar não devias ter vindo. E tudo em Marianne a dizer estou em paz, porque não consegues estar em paz também?


Há uma tristeza profunda em Marianne. As mulheres aprendem a aceitar o inaceitável, a meu ver. Vão para além dos seus limites para salvar alguém, mesmo que esse alguém apenas queira ser deixado em paz. E daí talvez não. Talvez Marianne tenha ouvido o seu grito de socorro silencioso. Mas mesmo que a sua conversa seja amena, Johan é-lhe inacessível. Todos o incomodam, aliás. Alimenta o ódio e desprezo pelo próprio filho. Não aceita a morte da nora por quem certamente terá sentido alguma atracção. Quer apoiar a neta, mas ficamos sem perceber se é para a libertar, para a ver autónoma e feliz, se apenas para ferir o filho.
Marianne evita julgá-lo. Ouve, tenta sensibilizá-lo e, quando vê que não é possível, aceita. Pura e simplesmente. Parece resignação, mas é outra coisa. Marianne aceita a natureza de cada um sem julgar.


Todos os diálogos são impressionantes. Mas nenhum tão intenso e doloroso como o de Marianne e Henrik. Aqui Marianne vê, talvez pela primeira vez, a dimensão do ódio neste homem sofredor. Sofrimento que talvez tenha nascido do convívio com um pai frio e egoísta, que gostava de o humilhar. Este homem sonha com a morte do pai. Como se essa morte lhe desse, a ele, a vida!


Aqui as mulheres resistem melhor, talvez porque a sua base, o seu suporte, não seja a agressividade ou a violência. Em Marianne é a sua capacidade de amar e de aceitar a natureza humana sem a questionar. Porque aceita a vida, o amor, os afectos, a compaixão, sofre. É inevitável. Até porque as pessoas que mais ama, as filhas, estão longe. Uma na Austrália, outra, muito mais longe, num hospital psiquiátrico.


Karin precisa desesperadamente de um espaço-tempo para viver e respirar. Marianne consegue despertar nela essa chama irrequieta, essa vontade de viver a sua própria vida, libertar-se das exigências insuportáveis do pai. Conquistará a sua autonomia em relação ao pai, que tenta o suicídio, de forma espectacular.

Johan fecha-se de novo no silêncio.

Marianne volta a casa e vai visitar a filha. Esta é, para mim, a cena mais tocante. Onde antes sentia uma grande distância, Marianne descobre, no olhar da filha, o milagre da comunicação.

 

 

 

 

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publicado às 15:21

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44

A proximidade de tudo o que é humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.07

 

Em On Dangerous Ground é a neve muito branca que ilumina tudo. O branco onde tudo se pode escrever.

O nosso herói vive atormentado. Não se sente bem na sua alma, no papel de polícia, na cidade, na solidão, na violência. A cidade sempre escura, a esconder o crime e a decadência. Os preconceitos no olhar do outro que tornam qualquer comunicação impossível. Deixa-se levar pela sua própria violência e acaba por ser despachado por uns tempos para o longínquo norte, onde terá de descobrir o assassino de uma miúda.

O que mais impressiona é aquele branco interminável da neve. Aquela casa tão isolada de tudo. Aquela mulher tão isolada do mundo e, no entanto, o mais próxima possível do mundo. E de tudo o que é humano. Do irmão louco que lhe traz o mundo para dentro de casa e que ela protege do próprio mundo.

A casa é o refúgio, um pequeno mundo onde cada objecto tem uma história, um significado. O homem comove-se, pela primeira vez. E pela primeira vez deixa de lutar contra o mundo. Pela primeira vez chega a casa. Encontra o seu lugar.

A mulher compreende o homem desde o início. Vê melhor porque não é com os olhos que se vê o essencial. E aceita-o sem receio ou condições. Confia porque aprendeu a viver assim. Essa é a forma de o libertar da impossibilidade de comunicar.

 

 

 

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publicado às 15:36


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